« | Entrada | »

domingo, março 20, 2005

A regressão cultural

O texto que transcrevi na entrada anterior sugeriu-me umas quantas observações sobre o momento cultural que se vive actualmente em Portugal. Já antes uma entrada do Ideias Soltas me suscitara alguma reflexão sobre isso.
A razão pela qual parece estar a acontecer uma certa regressão cultural deve-se à progressiva democratização das sociedades — porque isso não é um exclusivo do nosso país. E essa regressão é inevitável, se se pretender prosseguir no caminho da democracia. Por mim, prefiro que se vá por aí, apesar do preço a pagar. De qualquer forma, há sempre um preço que se paga seja qual for o caminho...
À medida que recuarmos no tempo, veremos que a cultura dominante na sociedade era imposta por elites. Hoje, a opinião irreflectida, mal fundamentada (ou, muitas vezes, não fundamentada de todo) do mais comum dos cidadãos vale tanto, socialmente, como a de uma pessoa esclarecida. O facto de numa eleição para cargos políticos o voto ser igual para todos é o paradigma disso mesmo.
Portugal é um país de broncos. Quer se goste de ouvir/ler isto, quer não, é a realidade como eu a vejo. E é suportada pelos mais diversos indicadores, desde os números do abandono escolar aos dos comportamentos de risco nas áreas da saúde pública ou da condução automóvel, por exemplo. Para já não falar no racismo e na xenofobia, tema que tem estado em voga nos últimos dias.
O problema não está na ascensão dos broncos em si mesma, mas sim no facto de eles acharem que a sua brutidade é o supra-sumo da sua afirmação na sociedade e de, por isso, a cultivarem ao ponto de a quererem impor a todos. Mas, no actual estádio civilizacional, democracia significa que a sociedade se move como um todo numa determinada direcção e já não naquela que as elites acham ser a melhor.
É preciso que os broncos percebam até que ponto são deficitários das coisas que realmente têm valor e se envergonhem de ser como são ao ponto de lutarem por se melhorar enquanto pessoas, em vez de tentarem impor-se através da sua bestialidade. E cabe às elites fazer-lhes perceber isso. Com inteligência e bons modos, porque, senão, resultará exactamente no inverso do que se pretende.
A regressão cultural é apenas aparente. As opiniões das elites é que passaram a ser submergidas pelas da maioria da população. E o que muitas vezes se faz é comparar a cultura dominante actualmente com a cultura dominante de há 30 ou mais anos, que era imposta pelas elites.

publicado por zedtee às 16:32

Comentários


[AVISOS] Os comentários não reflectem necessariamente a opinião do autor do blogue.
Qualquer comentário poderá ser cancelado simplesmente porque me apetece fazê-lo ou por qualquer outra razão que só a mim diz respeito.


Estimado Zee Tee

Agradeço o interesse que o texto que coloquei motivou e o comentário que apôs.
No entanto, não creio que tenho sido bem compreendido no que pretendi dizer, sabendo que foi a ausência de exploração do tema que permitiu algumas interpretações que estão muito longe do meu pensamento e que se resumem neste parágrafo seu que transcrevo para melhor se perceber:

«

  • O problema não está na ascensão dos broncos em si mesma, mas sim no facto de eles acharem que a sua brutidade é o supra-sumo da sua afirmação na sociedade e de, por isso, a cultivarem ao ponto de a quererem impor a todos. Mas, no actual estádio civilizacional, democracia significa que a sociedade se move como um todo numa determinada direcção e já não naquela que as elites acham ser a melhor.
  • Quando concluí que sou um "marginal e elitista", expressão esta que o terá, talvez, ferido, não quero dizer que não sou democrata, que não considere que cada voto valha rigorosamente o mesmo que os demais ou tão pouco que as elites devam determinar o sentido do devir, bem pelo contrário, entendo que existem ainda mesmos nas chamadas sociedades ocidentais muitos aspectos em onde o défice democrático é assustador (ver recente post em http://ideias-soltas.weblog.com.pt/arquivo/183418.html , por exemplo.
    O que pretendi dizer foram três coisas que me afligem de sobremaneira:
    1 - as elites culturais são necessárias e fulcrais em qualquer modelo de sociedade;
    2 - contrariamente ao seu dever de se assumirem interventivamente na sociedade em Portugal essas elites remeteram-sea um papel passivo, alheando-se não da condução, mas de uma participação activa que possa permitir, quem não teve a sorte de obter instrução e de estudar vários assuntos, conhecer opções de vida, vulgo, culturais diversas para poder optar na hora do voto com outro conhecimento e sensibilidade;
    3 - a substituição dos Pais e da Escola pelo audiovisual, em especial a televisão, na formação da identidade dos nossos jovens, imbuíndo-os de valores absolutamente contrários a uma sã convivência democrática.

    Fica a promessa de mais tarde voltar a este tema, pois para comentário seria maçador explanar mais do que aquilo que já fez.

    Abraço

    inserido por Carlos a.a. em 21-03-2005, às 12:04

    Caro Carlos, julgo ter percebido o que quis dizer quando se afirmou marginal e elitista. E até concordei consigo quanto à importância duma certa marginalidade, tal como concordo relativamente à importância que actualmente as elites deveriam ter. Mas existe uma distinção de género entre elite e elitismo ou elitista. Uma coisa é ser-se membro de uma elite e outra é ser-se elitista. A elite tem uma função social, o elitismo parece-me desnecessário, porque apenas tem por finalidade promover a perpetuação das elites. O que me parece ser o caminho certo é a diluição das elites na sociedade, influenciando-a decisivamente, e não o de serem submergidas por ela ou, por outro lado, o de ficarem eternamente fechadas na sua torre de marfim a contemplar o seu próprio umbigo.
    No fundo, eu e o Carlos estamos de acordo. A nossa divergência é mais uma questão semântica do que qualquer outra coisa...

    inserido por zedtee [TypeKey Profile Page] em 21-03-2005, às 12:41

    Assim parece, estimado Zee Tee, uma questão de semântica, mas talvez não só! Não posso deixar de estar de acordo quando afirma que uma coisa é elite, outra elitismo e ainda outra elitista, são precisões que poderão parecer preciosismos, mas não o serão de todo.
    Com efeito, não sou elitista no sentido de entregar a os nossos destinos a um escol "superior" - elitismo, nem sou adpto de marginalizar os que não se enquadrarão nessa coisa chamada elite - elitista. O que pretendi dizer e não disse, foi tão-só que as elites são fundamentais para qualquer sociedade e têm obrigação de ser socialmente activas e não demitir-se das suas obrigações.
    Como vê, comseguiu dar uma maior precisão ao que eu gostaria de ter dito e não o fiz, agradecendo desde já.
    No entanto, a "diluição das elites na sociedade" é que não sei se estarei de acordo, pois se as elites são necessárias, se é necessário que elas sejam activas como percebê-las se diluídas na sociedade?
    Mas aqui fica uma questão para vermos mais adiante.

    inserido por carlos a.a. em 21-03-2005, às 18:04

    Hum, talvez não seja só uma questão semântica, de facto. E também eu não fui suficientemente preciso relativamente à questão da diluição das elites na sociedade.
    Um dos meus defeitos é o de olhar para o presente logo a pensar no futuro. E é o que está acontecer aqui. Concordo consigo quando escreve que as elites são fundamentais para qualquer sociedade, mas só no que se refere ao momento actual e num futuro mais ou menos próximo. Porque defendo que, num futuro mais longínquo, as elites desapareçam por si mesmas, logo que se tornem desnecessárias. É que eu acredito que haverá um momento em que não serão mais necessárias para o progresso da sociedade. Mais: acredito que, num determinado momento histórico, as elites poderão vir a tornar-se, elas próprias — todas elas —, num factor que impede o progresso (o que até já acontece actualmente com algumas elites). Mas a diluição não significará que elas sejam menos activas. Significa, isso sim, a adopção duma estratégia diferente da habitual, procurando mudar a sociedade por dentro, em vez de tentar mudá-la a partir de cima (o que já se verificou que resulta cada vez menos).
    É, realmente, complicado discutir estes conceitos num blogue. Por isso, fico satisfeito se esta nossa troca de posts servir para estimular a reflexão sobre esta questão e todas as outras que com ela se relacionam.
    Ah, e não tem que me agradecer o que quer que seja. A menos que queira que eu também desate para aqui a agradecer-lhe... E ainda acabamos a consumir largura de banda com meras formalidades. ;)

    inserido por zedtee [TypeKey Profile Page] em 21-03-2005, às 22:07

    [Os comentários para esta entrada encontram-se agora fechados.]